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Entrevista BÖHSE ONKELZ

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Formado no início da década de 80, o Böhse Onkelz é o tipo de banda que tem tudo para escrever um capítulo histórico durante sua primeira passagem pelo Brasil após tantos anos de carreira, mesmo sabendo dos grandes desafios que terá pela frente.

Banda que tem sua história se fundindo com alguns dos mais importantes episódios sociais da Alemanha, nasceu com os pés no punk rock, fundiu sua paixão por futebol lá no início da carreira com o movimento skinhead, absorveu influências de hard rock e heavy metal ao longo dos anos até se tornar um dos maiores fenômenos da música alemã. Com shows que contam com a presença de mais de 40.000, 50.000 pessoas, construiu uma extensa discografia capaz de superar suas mais variadas formações sem perder a identidade com o público.

Ciente de que será novidade no festival brasileiro, o próprio grupo alemão se encarregou de disponibilizar uma playlist onde apresenta parte de sua discografia, o que inclui faixas do álbum E.I.N.S., lançado em 2004 e considerado pela Metal Hammer como um dos mais importantes da história do heavy metal. Para ouvir clique aqui.

O Passagem de Som conversou com o baixista Stephan Weidner e o guitarrista Matthias “Gonzo“ Röhr sobre tudo o que cerca essa passagem da banda pelo Brasil. A identificação com o país, os diferentes momentos de sua história e muito, muito mais. Uma entrevista essencial para quem vai conferir a banda nos próximos dias na edição 2017 do Maximus Festival.

A primeira turnê pelo Brasil
Matthias “Gonzo“ Röhr: Sei que o rock é muito importante no Brasil. Vivi sete anos em Colônia do Sacramento, no Uruguai, e gravei um dos meus discos solo, Barra da Tijuca, no AR Studios, no Rio de Janeiro, ao lado de músicos brasileiros, americanos e os alemães de minha banda. Trabalhei com Glaucio Ayala e Marcelo Linhares, que são dois músicos muito bem reconhecidos no Brasil, e ainda tive a sorte de contar com Armando Marçal no trabalho de percussão.

Dessa forma tive muito contato com os fãs de rock e músicos no Rio de Janeiro. Senti na pele a verdadeira hospitalidade brasileira, que sempre fez questão de me fazer sentir-se bem e me permitir desfrutar de toda sua cultura. Eu diria que sou um viciado em feijoada! (risos).

Sei que todas as vertentes do rock são muito bem recebidas no Brasil, em especial aquelas bandas que podem vibrar junto ao público. E é isso que nós fazemos! Tocamos um rock poderoso desde o primeiro ao último segundo de nosso show!

Stephan Weidner: Não esperamos nada, mas queremos tudo. Para nós essa viagem até a América do Sul é uma aventura para um mundo completamente novo dentro de nossa experiência como banda. Se bem que eu e Gonzo vivemos no Uruguai e Costa Rica e, criativa e esteticamente, muitas coisas nos unem a América do Sul.

Eu nunca imaginei que um dia tocaria aí com o Onkelz, pensar nisso  30 anos atrás parecia algo tão surreal como a distância que separa São Paulo de Frankfurt. Estamos muito ansiosos para ver o que podemos dar às pessoas e também recebê-las sabendo que  ninguém veio por nosso nome, nossa história, a nossa imagem ou até mesmo por nós. Quais as quais as sensações? Qual a energia e quais as reações que liberamos com nossas letras? Queremos criar um elo através da música, do carisma e de nossa própria energia. Estou ansioso em descobrir isso. Essa emoção só pode trazer um resultado grandioso. É preciso dizer algo mais?

A gravação do album Memento uma década depois e em uma nova realidade musical
Stephan Weidner: Logicamente, antes de dar um passo decisivo na carreira nos perguntávamos como reagiriam as pessoas com um novo álbum do Onkelz e o que esperavam dele. Mas para ser honesto, escrever canções e trabalhar no estúdio… isso era indiferente para nós. Fizemos um álbum do qual nos orgulhamos e acreditamos que o Onkelz 2016 estão bem representados. Com o lançamento a repercussão foi impressionante! Tanto do ponto de vista dos números como dos comentários.

Nosso último álbum antes de Memento era de 2004 e as circunstâncias e o ânimo da banda em estúdio eram completamente diferentes. Antes de tudo, no último ano era perceptível a alegria de todos os integrantes em voltar a gravar um disco como banda sem nenhuma desconfiança. É por esse motivo que o fizemos é por isso que Memento é um álbum muito valioso para nós.

Todo processo criativo foi muito interessante. Desde as primeiras demos que tocamos juntos até a masterização prévia do lançamento, a todo momento estávamos na mesma sintonia. A nossa banda tem uma posição de privilégio e sem pares no mercado alemão.

Não tínhamos que pensar nas mais diversas variantes de formato e só disponibilizamos o disco em plataformas de streaming semanas após o seu lançamento físico. Mesmo sem ter a real capacidade de prever o que ia acontecer, tínhamos a esperança de que os fãs do Onkelz celebrariam o lançamento da mesma forma que fizeram antes de nossa separação. Naquela época não havia Spotify, Apple Music, YouTube e outras coisas. À essa altura o disco já havia sido comprado, ouvido um milhão de vezes e já havia espaço para ele dentro do coração de nossos fãs. Foi assim naquela época e aconteceu agora. Eu tenho um orgulho imenso do fanatismo dos fãs que temos e agradeço sempre por isso.

Matthias “Gonzo“ Röhr: Estamos muito contentes com o disco. A produção dele foi um grande desafio para todos nós e, claro, as expectativas eram muito altas para o público. Um novo disco do Onkelz depois de tantos anos!! Todo mundo se perguntava como soaria e como faríamos tudo isso em estúdio. E antes de todos os fãs, nós mesmos também (risos). Tenho certeza que foi uma decisão feliz da banda gravar algumas partes e terminar a produção do disco com Michael Wagener em Nashville porque ele tirou o melhor de nós. Com respeito aos novos formatos e as mídias sociais, não temos problemas. Se você estiver familiarizado com a história da banda, você sabe que sempre nos atualizamos em relação às novas formas de promoção e novas mídias.

A possibilidade de ter experimentado várias sonoridades durante a carreira e a relação com o público
Matthias “Gonzo“ Röhr: No caso do Böhse Onkelz o público está o mais próximo do que podemos chamar de homogêneo. Em nossos shows é possível encontrar gente de todos os tipos com qualquer percepção social e cultural que você imaginar. Se trata de um dos recursos mais belos e secretos de nossa banda. Nunca perdemos a nossa franqueza e sempre demos boas-vindas às pessoas dos mais distintos estilos de vida e diferentes crenças. Essa conexão e estabilidade que temos com nossos fãs sempre foi algo muito mágico para nós. Em todos os momentos evitamos qualquer tipo de rótulo ao nosso som e às pessoas. A banda trabalha muito além das questões políticas e sociais atuais.

Stephan Weidner: Para nós sempre foi muito importante permitir a inclusão de novas influências e experiências em nossa música. Isso fez com que a cada álbum nosso público se tornasse cada vez mais fanático, mesmo aqueles que deixaram a estrada por não se acostumarem com o novo som do Onkelz. E assim está perfeito! Como contrapeso disso temos uma base incrível de fãs que nos acompanha até hoje! O típico estereótipo de fanático por Onkelz já não existe faz tempo. Nosso público é tão diverso como o de qualquer outra banda (talvez com um pouco mais de testosterona).

Uma longa carreira, o legado e a realização
Stephan Weidner: Já faz muitos anos que não atribuímos o sucesso a uma relação com números. Na realidade nunca medimos. Nossa “unidade de medida de sucesso” é a satisfação e a energia positiva que carregamos. Em função disso estamos no melhor momento de nossa carreira. A química entre a banda nunca foi tão positiva, construtiva e criativa como é hoje. Nunca foi tão incrível fazer parte do Onkelz! E esse sucesso e profissionalismo não aconteceu da noite para o dia e nem foram fruto de um cálculo minucioso de um empresário. Foi resultado de cada passo que demos nos submetendo a uma evolução natural enquanto vivíamos como banda. Por isso não existe uma receita mágica para o sucesso do Onkelz. A verdade é que ninguém nunca vai ter condição de explicar isso, muito menos eu (risos). É como se nós fizéssemos nossas músicas como uma poesia: uma magia que acontece entre nós e nossos fãs. Experiências compartilhadas e o fato de realmente ter vivido aquilo que cantamos certamente constituem uma parte da magia.

Matthias “Gonzo“ Röhr: Como disse anteriormente, para mim o mais importante é a sinceridade da banda. Se cometemos um erro, respondemos por esse erro e você vai ver que na próxima vez vai fazer muito melhor. Se você caiu vai levantar e seguir. Se trata simplesmente de energia positiva pura e simples. Não vivemos de uma imagem. Somos o que fazemos e somos o que dizemos. É simples.

A importância da internet na carreira Böhse Onkelz após o problema de distribuição de discos da banda no passado
Matthias “Gonzo“ Röhr: Tivemos sim alguns problemas com distribuição de discos, mas isso é passado. Para os shows da nossa volta e outros shows no ano seguinte no circuito de Hockenheim de Fórmula 1 nós vendemos 600.000 entradas. No ano passado realizamos uma turnê com 280.000 entradas esgotadas. Existe uma nova geração de fãs e sabe o por quê? Em minha opinião é a terceira geração que nos escuta e porque nosso sucesso com esse público se deve exclusivamente à internet, mas acredito que a publicidade à antiga, no boca-a-boca, também é muito importante. Para o público mais jovem isso soa como ser fã desses caras tão ruins que os tios gostavam (risos).

Stephan Weidner: Em relação ao Onkelz creio que a função da internet é contraditória. Hoje em dia todos podem escutar e ter tudo sempre, o que supõe-se que seja grandioso. Em teoria. Porque desta forma qualquer pessoa pode pegar uma faixa do Onkelz e dar um contexto com que não estejamos em nada de acordo. De todos os modos, utilizamos a rede como um instrumento importante para informar nossos fãs mais novos. Muito tempo antes de redes sociais como Facebook e Twitter fossem vistas como uma revolução, nós percebemos que haviam vantagens com a internet. Acredito que em 1995 éramos a única banda alemã a ter uma página própria na internet e seguramente isso foi importante, mas provocou um boicote à banda com grandes e médias gravadoras, além de canais de divulgação, que no fim dos anos 90 não nos promoviam. Como não queríamos aparecer em nenhum jornal de grande circulação, apenas veículos menores nos entrevistavam – salvo alguma exceção – e não realizamos nenhum trabalho em grandes emissoras de TV. Por outro lado a internet é hoje o primeiro contato com nossos fãs que buscam informações sobre o que fazemos. Nada vai mudar nesse sentido.

Música e engajamento
Stephan Weidner: Acredito que a música possa gerar algo nas pessoas. Na época em que formamos a banda, o punk nos encorajou a pegar instrumentos e formar uma banda sem ao menos termos ideia de como tocá-los, mas podíamos dar foco à nossa energia e a uma certa frustração adolescente a partir disso. A música é um caminho muito curto para atingir o coração e a mente daqueles que não ouvem nada. “Levante-se e faça algo! Não obedeça a ninguém e não deixe que decidam nada por você!” são mensagens importantes que devem ser lembradas quando as pessoas se sentem impotentes sobre algo ou insignificantes. Todos podem aprender algo nem que seja apenas para si próprio e sua visão de mundo. Também não sou amigo do dedo indicador levantado (muitas vezes forçado pelas próprias bandas alemãs). A música deve motivar a reflexão? Sim, mas cada um tem que se mexer sozinho.

Matthias “Gonzo“ Röhr: A passividade é um dos maiores problemas… Se alguém pode fazer praticamente tudo sem ter nenhuma reação, então nunca vai sentir a necessidade de se mexer. A música foi sempre o poder por trás de uma revolução. Porém hoje em dia se transformou em um negócio e passou a ser parte de um sistema. Isso é o problema principal agora. Somente alguns músicos conseguem ter uma mente aberta e se negarem a ser corrompidos por esse negócio.

A popularidade do punk rock na Alemanha
Matthias “Gonzo“ Röhr: Nós começamos nossa história pensando que éramos apenas uma banda punk que falava demais. Uma hora percebemos que éramos mais que isso e queríamos gritar cada vez mais alto para as pessoas sem se importar com o que pensavam. Em nenhum momento pensávamos sobre o que poderia acontecer amanhã, isso nos fez uma banda muito independente, incluindo todos os processos que envolvem tanto a música como os negócios. Muitos jovens na Alemanha são extremamente sensíveis à injustiça e mentiras e querem voluntariamente fazer frente a essas coisas. Talvez esse seja um dos motivos que fizeram do rock e do punk uma música tão forte em nosso país.

Stephan Weidner: O punk rock, ou melhor, o rock em geral, sempre teve uma grande expressividade na Europa, mas na Alemanha existem poucas bandas que posso considerar realmente boas. Agora olhe para os países escandinavos. Houve uma época em que praticamente toda semana aparecia para nós um lançamento de uma nova grande banda da Dinamarca ou Suécia. Também é fácil perceber que a “pátria-mãe” do heavy metal é a Inglaterra, mas a Alemanha sempre teve um olho aberto para uma música com guitarras pesadas e isso acabou fazendo com o que o país acabasse criando alguns dos mais importantes festivais do gênero.

E graças a isso houve espaço para uma banda como o Onkelz. Lamentavelmente não conheço muito da cena punk rock brasileira, mas pretendo ter o máximo de informações após nossa viagem ao país porque muito mais importante que grandes shows é fazer viver uma cena local. Quando  festivais acontecem tudo se mantém vivo, é onde bandas novas e interessantes têm a oportunidade de tocar e manter vivo esse espírito punk.

Na Alemanha as bandas com raízes punk e que hoje em hoje em dia podem ser dar ao luxo de tocar para milhares de pessoas se contam nos dedos da mão. Somos orgulhosos de ser uma dessas bandas e agradecemos por isso com a maior humildade possível. Se em nossos primeiros dias fazíamos shows caóticos e selvagens em Frankfurt e cidades próximas, também nunca tivemos dúvidas de que poderiam fazer isso crescer a ponto de ser uma das bandas mais importantes para um festival.

A função da classe artística em um mundo com Trump
Stephan Weidner: Nesse momento a Alemanha está indo pelo mesmo caminho que os Estados Unidos. A sociedade está desmoronando a a lealdade entre as pessoas está indo abaixo. Isso tudo pode resultar em um cenário catastrófico. Trump é só uma aberração em evidência que envolve essas questões. Os artistas tem a obrigação de manter vivo o sentimento de pessoas que faziam com que nos uníssemos, não que nos dividisse. “Se os garotos estão unidos, eles nunca serão divididos”. Essa frase nunca foi tão importante como hoje. Os muros, como o de Trump, nunca foram solução para nada. Não se deve existir fronteiras entre as cabeças das pessoas. A responsabilidade dos músicos acontece a partir do momento em que surge a inspiração para despejar suas sensações sobre um pedaço de papel porque muita gente vai ter contato com aquilo.

Matthias “Gonzo“ Röhr: São gostos distintos e como disse antes, não falo sobre política.

Futuro
Matthias “Gonzo“ Röhr: Vamos lançar o álbum ao vivo “Live in Dortmund 2” que gravamos durante a nossa turnê do ano passado e também lançar um DVD ao vivo, também gravado durante essa turnê. O DVD também será lançado nos Estados Unidos.

Stephan Weidner: Assim que terminarem as nossas participações durante o Maximus Festival, vamos voltar a planejar nosso festival, o Matapaloz, que entra em fase final. Em junho vamos tocar com Slayer, Five Finger Death Punch, Anthrax, Hatebreed e outras bandas incríveis no circuito de Hockenheim, na Alemanha. Esperamos esse momento com muita ansiedade. Ter um festival próprio, criado desde o início de acordo com nossos gostos, sempre foi um grande sonho dentro da banda. O Matapaloz tem que passar por seu batismo de fogo esse ano. Se for bem-sucedido, com certeza voltaremos no próximo ano no mesmo local.

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