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E Entrevistas

Entrevista PROTOFONIA

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Com uma proposta inovadora, o trio brasiliense de música instrumental Protofonia tem influências que passam pelo jazz, blues, rock progressivo, improvisação livre, música erudita contemporânea e eletroacústica. Puro experimentalismo! Ele é composto por André Chayb (guitarra, ukelele, theremin, teclado, ruídos), Janari Coelho (bateria, percussão, paisagens e intervenções sonoras, ruídos) e André Gurgel (baixo, violão, teclado, plásticos, ruídos), todos figuras tarimbadas da cena brasiliense.

O novo disco “A Consciência do Átomo” contou com a produção de Pedro Baldanza, lendário baixista da banda Som Nosso de Cada Dia, que também esteve presente nessa entrevista super legal com o trio.

Com proposta inovadora na música instrumental, Protofonia é destaque na nova cena brasiliense - Créditos: Divulgação

Entrevista PROTOFONIA

A Consciência do Átomo
André Gurgel: O título “A consciência do átomo” veio de um livro da Alice Bailey, uma escritora da década de 1920. Foi um livro muito marcante para mim e para o Janari porque abriu muito a nossa cabeça para essas coisas de espiritualidade e física quântica. Quando a gente estava compondo a música, pensei nesse título porque ele tem uma carga sonora muito boa e nos leva a pensar em coisas interessantes. O disco não é um trabalho conceitual, mas temos planos de fazer discos mais conceituais, com uma ideia mais forte.

Lançamento em vinil
André Gurgel: O trabalho gráfico foi feito mais uma vez pelo Eduardo Belga, que fez nosso primeiro disco também. Aqui em Brasília a gente tá na raça e na coragem, pois, por enquanto, as bandas autorais não têm muito lugar para tocar. Escolhemos o vinil não só pela estética, mas pela qualidade do som e pela vida útil da mídia. O Victor Valentim, dono do selo Miniestério da Contracultura, cuidou de toda essa parte do vinil, entrou em contato com a Polysom etc. O nosso primeiro disco está disponível de graça no site deles (miniesterio.org) e esse nosso disco é o primeiro lançamento físico do selo. Vamos lançar um CD com uma música que não tem no vinil e o vinil também tem uma música que não tem no CD, e o trabalho gráfico deles também são diferentes.

Miniestério da Contracultura
Victor Valentim:
É um selo onde lançamos discos online e buscamos divulgar musicas de linguagens diferentes, não temos nenhuma restrição de estilo e é aberto para bandas de qualquer lugar. Estamos lançando a Coletânea Neopsicodélica Brasileira que reúne bandas de todas as regiões do Brasil em 18 faixas. Formamos uma equipe para escolher as músicas que enviaram para gente e fizemos uma pesquisa sobre quem queria participar da coletânea. Tivemos a honra de ter como curadores a Lucinha Turnbull (que tocou com a Rita Lee no Tutti Frutti) e Cristiano Bastos (jornalista do sul), entre outros. É só procurar na internet que é de graça. Esse selo é a afirmação da nossa união em Brasília, da nossa vontade de fazer musica nova, e tá conectado com artistas de vários lugares do Brasil. Fazer essa ponte é bem interessante, essa é nossa ideia. E tá sendo um prazer sem tamanho trabalhar com o Protofonia nessa empreitada que foi bem desgastante e interessante. A cada dia tivemos um aprendizado massa, o Pedrão nos ajudou a masterizar, pesquisamos a melhor maneira de masterizar para suportar um vinil. Quando eu mandei o áudio final pra fábrica, eles falaram que o som estava excelente, só perguntaram se aquela musica “O Freevo” do lado A terminava assim mesmo. (risos)

Produção
André Gurgel:
Nesse disco, a gente teve a grande ajuda com a produção do Pedrão Baldanza, o baixista do Som Nosso de cada dia e foi muito legal, adicionamos muitos elementos da música brasileira que o primeiro disco não tinha, então houve uma pesquisa muito mais ampla, principalmente na questão do vocal, porque ele é um grande vocalista.

Pedro Baldanza: Os meninos têm uma pegada progressiva muito forte, muito evidente, e o que eu senti quando escutei pela primeira vez é que eles precisavam apenas de direção, porque a música deles era maravilhosa. O trabalho desse disco foi super gostoso, eu vim pra cá (Brasília) e fiz umas edições nos arranjos deles nos ensaios e chegamos a um resultado maravilhoso. Acho que eles fazem uma música que eu considero uma coisa de elite no Brasil, é música progressiva brasileira, não é rock progressivo, porque eles caminham por vários elementos brasileiros e trazem na cultura da música deles um apelo social e político muito forte que se evidencia inclusive no próprio nome das canções e nas ideias que eles têm do momento que estamos vivendo. É uma forma muito interessante de projetar todo esse processo que estamos vivendo aqui num contexto musical, sem palavras, sem blá, blá, blá.

Parceria com Pedro Baldanza
Janari Coelho:
A gente já conhecia o trabalho do Pedrão, mas no Facebook a gente vai adicionando as pessoas e eu pensei “Quem sabe o Pedrão me aceita?” Por exemplo, o Flávio Venturini não aceitou meu pedido, mas tudo bem (risos). Mas o Pedrão é uma pessoa muito simples e batalhadora que tá aí até hoje abraçando a profissão de operário músico.

Pedro Baldanza: Foi muito engraçada essa história, porque a gente começou a amizade pelo Facebook, até que um dia o Janari falou “pô Pedrão, posso tomar a liberdade de te mandar nossa música pra você ouvir?”, todo cheio de dedos, a mão dele tinha oito dedos mais ou menos, todo preocupado. E eu falei “claro, manda sim, vou ouvir” e ele mandou. E continuei conversando com ele e ouvindo, ai ele não acreditou que eu estava ouvindo, ai eu comecei a falar “olha, tá acontecendo isso nessa parte da música e tal”. E eu já sou muito chato com essas coisas, sou “pitaqueiro” mesmo, adorei o que ele estava mandando, mas já comecei a ficar com vontade de mexer aqui e ali, por A no lugar do B etc. E ele falou “pô cara, que legal, é a primeira vez que alguém realmente ouve o negócio comigo”. E a partir disso a gente começou a se envolver até que eles fizeram o convite, fizeram um esforço danado, porque não é fácil investir; eles me trouxeram pra cá sabe, me bancaram, virei o rei da cocada preta (risos).

André Gurgel: De uma hora para outra o Pedro Baldanza tinha vindo direto de São Paulo para o subúrbio de Brasília, na Ceilândia, para gravar o disco.

Influências brasileiras
André Chayb:
Nós temos uma influencia muito forte do Hermeto Pascoal, a gente escuta muito Egberto Gismonti, Heraldo do Monte, que é um cara fantástico. Isso falando mais da parte de misturar música brasileira, jazz, progressivo ou ruídos, essa coisa eletroacústica. Às vezes, lá no fundo você ouve um samba enquanto tá tudo empenado. Mas também somos grandes fãs do Som Nosso de Cada Dia, por exemplo, do rock brasileiro quando tinha cara de bandido. Tem que fazer uma arqueologia, porque a galera acha que o rock no Brasil surgiu nos anos 80, mas na verdade ele morreu nos anos 80 (risos).

Trilhas sonoras
André Chayb:
O som do Protofonia tem um apelo visual muito forte e o trabalho no teatro deu muito certo. O diretor Hugo Rodas pedia “para essa cena, quero um som de enchente”. Qualquer coisa que ele falasse, a gente tinha que improvisar e construir um tipo de imagem. Isso tem muito a ver com nosso som atonal, cheio de ruidísmos. A gente trabalhou com o Hugo em “Macufagia”, uma releitura de Macunaíma e a gente continua trabalhando com teatro; agora estamos fazendo uma peça que trata da mitologia dos Orixás. E acabamos de ser convidados para um novo projeto de cinema, vamos fazer a trilha sonora para um longa-metragem de um diretor aqui de Brasília. Algumas músicas do nosso primeiro disco foram inseridas em um curta desse mesmo diretor.

Cena brasiliense
André Chayb:
A cena brasiliense está mudando para melhor, a gente tem percebido que muitas bandas estão utilizando como matéria prima aquela psicodélica dos anos 60, como por exemplo, a Almirante Shiva; eles têm essa pegada, essa coisa enérgica que se perdeu com a questão do digital, onde as coisas ficaram meio chapadas e certinhas. Algum tempo atrás, não tinha nada autoral, agora a gente tá vendo muita coisa acontecer.

Janari Coelho: Aqui em Brasília tem muita banda e muita gente que vive de música, mas o músico aqui tem que tocar muito cover pra investir na sua banda autoral. Achar espaço para tocar é muito complicado, porque só tem pub e a moçada do autoral curte tocar em locais mais abertos. As cidades satélites é que salvam, pois podemos tocar em praça pública, é muito mais fácil. Aqui em Brasília as pessoas têm tolerância zero.

André Chayb: Quem alimenta o rock em Brasília é quem tá na periferia. A atitude e o rock’n roll mesmo estão na periferia

Pedro Baldanza: É porque é onde estão os movimentos sociais mais naturais e orgânicos, como o rap, são esse que são pulsantes, são esses valores que a juventude deve saber trabalhar, compreender e evidenciar o que é bom, para que não fique essa coisa que acontece aqui na cidade, onde existe uma elite que comanda tudo e evita que essas manifestações que realmente são dos brasiliense desapareça.

A lei do Silêncio
Pedro Baldanza:
Na verdade, essa lei é uma coisa fascista, essa é a palavra. É um negócio muito escroto, um bando de babacas inventou essa lei, porque tá parecendo que a época do Mussolini tá voltando. Como você pode tirar o direito de alguém de trabalhar? Porque o vizinho reclamou? Então faz o bar ter uma acústica descente, montar um esquema certo para que a música role. Essa lei é um absurdo, as coisas precisam ser regulamentadas de forma correta para que todos possam trabalhar.

André Gurgel: Foi uma lei elaborada muito apressadamente e acabou sendo votada sem muita análise, porque o nível de decibéis que eles aprovaram é totalmente insensato tendo em vista que uma simples conversa sem música acaba ficando mais alta do que o nível que eles estipularam. Então fica uma questão de diferença estética, uma conversa alta pode, mas se você pega um violão já dá polícia. Tem pessoas que aprovam esse nível de decibéis dentro da casa de quem está reclamando, pra ver se faz sentido. Essa lei complicou a situação aqui. Brasília é uma cidade setorizada, mas o setor de diversões é o setor de trabalho, na verdade.

Pedro Baldanza: Acho que Brasília é uma cidade onde a linha moral e social que determinados elementos aqui têm, depende muito do poder que alguns têm sobre os outros. Então, de repente vem uma linha religiosa de deputados e vereadores poderosos que impõem determinadas restrições que não são justas. De repente, vem uma outra corrente que impõe uma outra onda, então a cidade é muito sujeita a isso. Acho que deveria haver uma maior independência dos poderes da cidade em relação ao espaço federal. Tinha que haver uma maior valorização e preocupação do governador dessa região em criar uma diferença entre uma coisa e outra, para poder investir da forma correta na cidade e não na capital do país. Deixa para o governo federal cuidar da imagem, mas a cidade não pode esquecer quem vive aqui. As cidades satélites aqui estão se transformando em grandes favelões, mas a vida dessa gente é maravilhosa, pulsante, se houver um acompanhamento melhor, mais estrutura e preocupação com essa gente, esses lugares vão se transformar em cidades maravilhosas de se viver. Também falta uma preocupação do cidadão daqui de cobrar da forma correta. Tudo isso envolve esse processo, é um processo grande mudanças, mas os jovens como vocês tem que investir nisso, porque só um bom exemplo pode transformar as coisas a seu redor.

André Gurgel: Esse processo envolve a coisa da caretice da cidade, acho que ela tá mudando. Há pessoas interessadas em ouvir coisas mais “loucas” e também há pessoas querendo compor esse tipo de som. O Protofonia não é algo muito explosivo no Brasil e no mundo, em Brasília dá pra contar nos dedos quem tá no mesmo barco que a gente, mas por aí afora tem muita gente nessa filosofia da musica livre, destruindo cada vez mais fronteiras e rótulos. Isso é legal, acho que a caretice esta mais fraca.

Festival Som Nosso de Todo Dia
Janari Coelho: O festival “Festival Som Nosso de Todo Dia” é uma iniciativa do Clube do Som, do Odair Vieira, dono do estúdio onde gravamos o disco (Zimmer-Collen, na Ceilândia). O nome é uma homenagem à banda do Pedrão e o festival é na Casa do Cantador, na Ceilândia. É uma mistura, está aberto para todos os públicos. Tocamos na primeira edição do festival e a ideia é fazer dois por ano.

André Gurgel: Quem sabe a banda Rios Voadores toca na próxima edição.

Lançamento
André Chayb: Já estamos fazendo shows com as músicas novas e o disco está à venda no Kickante.com por um preço promocional, tem vários pacotes. E em setembro e outubro estaremos com a peça de teatro Axé Orixá aqui em Brasília.

Pedro Baldanza: Uma experiência incrível e mais uma afirmação da musica progressiva brasileira, que é o grande moto deles, e eles vão somar isso ao visual teatral. Algo muito diferente e isso que é maravilhoso: a coragem e capacidade dos meninos de se jogarem em uma experiência como essa, pouquíssimos tem coragem.

A música passa por aqui.

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