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Entrevista CIDADE NEGRA

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Responsáveis por levar o reggae a um novo patamar na música brasileira, o Cidade Negra coleciona em sua carreira de três décadas uma quantidade invejáveis de hits que atravessaram décadas. Consagrado como um quarteto, o grupo encarou o novo século de peito aberto como um trio, agora formado pelo sempre carismático vocalista Toni Garrido, além do baixista Bino Farias e o baterista Lazão.

Depois de encarar um hiato na virada da década, enquanto lançou um álbum com o vocalista Alexandre Massau, o trio resolveu se reunir para resgatar a magia da década de 90, além de fortalecer a cena. E ao lado de nomes como Natiruts, Ponto de Equilíbrio e muitos outros, vem mostrando nesses anos que o reggae está lá, firme e forte.

O reencontro, o novo momento do reggae e diversos assuntos são abordados nessa grande entrevista com o vocalista Toni Garrido.

 

O novo momento do reggae
Toni Garrido
: Essa questão é interessante porque o Cidade Negra se encontra hoje em um momento muito diferente da década de 90. Nós pegamos um momento do reggae em que tínhamos vários fatores e canais para usar naquela fase. Tínhamos gravadoras, rádios e TV e utilizamos isso durante um período em que todos eles mostravam nossa música para o Brasil inteiro. A nossa realidade hoje é que temos uma gravadora, que é a Som Livre, que temos uma relação extremamente independente e eles são nossos parceiros na hora de divulgar o disco, mas nossa carreira está toda na nossa mão. Nós não temos a mídia gravadora de forma geral como TV e rádio e não temos nada. Temos uma banda de reggae que adora de ver no site o registro que nós fizemos.

Partindo disso é tudo diferente não só para nós, mas para a cena em geral. Nós estávamos fora do circuito há alguns anos e pensamos que se está faltando força para o gênero, essa era a hora do Cidade Negra voltar porque sabíamos do tamanho do apoio que podíamos dar. Nós queríamos fortalecer um gênero que passou bons anos sem ter força no país. Então é uma verdadeira batalha campal por um ritmo que não é mais dominante e que tem foco na mídia e sem um aparato para apoiar, mas nós somos cascudos e vivemos vários períodos diferentes na carreira e não se engana com nada. Acreditamos na nossa verdade e aquilo que fazemos desde nosso início.

Então mediante a isso tínhamos bem claro o que queríamos com um novo disco. As pessoas querem sempre ouvir música e estão de ouvidos abertos para isso. Nós tínhamos que achar esses elementos facilitadores para poder levar nossa canção até a pessoa, chegando nelas a música por si só começa a transformar.

A química após tantos anos e o novo público
Toni Garrido
: Esse entendimento é o nosso maior trunfo. Nós perdemos nossa formação anterior sem nenhum desentendimento pessoal... de carreira. A falta de descanso fez a gente não se entender no passado, mas sabíamos que todo o stress fez isso, a música estava intacta, foi algo muito triste naquele momento. Acabamos nos afastando, mas a música estava mantida, nesses últimos 20 anos ela também fez a gente nos juntar. Nesse período ninguém nunca falou mal de ninguém, ao contrário, cobríamos uns aos outros de elogios e esse respeito e carinho sempre dava a possibilidade de voltarmos. Estávamos em paz.

O público foi um dos motivos dessa reunião porque as pessoas perguntavam muito o motivo de não voltar. Elas respeitaram a nossa opinião durante esse anos, mas muitas indagações ficavam do tipo “poxa, não vamos mais ouvir A Estrada, não vou mais ouvir Pensamento...”, aquilo que eu ouvia a vida inteira. Houve um clamor grande e nossa vontade não era só revitalizar esse show, mas de matar essa saudade e apresentar algo novo. Nós vivemos de algo novo, do próximo passo. Jimi Hendrix lançou discos clássicos  e nós sempre vamos querer ouvir aquele material, mas nós estamos vivos, não podemos ficar só no passado, as pessoas querem ouvir material novo e esse é nosso momento, da continuidade. O que foi feito foi feito, ninguém tira, mas o próximo passo marca uma nova era.

A internet e a qualidade da produção musical
Toni Garrido
:  A internet, por incrível que pareça, ainda é nosso maior problema porque ela também não é a nossa solução. O que quero dizer com isso é que estamos com uma geração que viu a internet nascer, mas que preferiu seguir escrevendo carta e não se adaptou rápido com e-mails. Então na música a internet apareceu e as pessoas não se interessaram tanto a ponto de realmente dominá-la até descobrir o que ela é realmente. Agora que está começando a explorar todo seu recurso, por isso digo que ela vai ser nossa solução a partir do momento em que a gente domine.

Levou um tempo para entender qual era a função disso tudo. Hoje sabemos que a internet é o melhor canal de comunicação para a divulgação de qualquer trabalho e nós não estamos tão integrados com isso. Por esse motivo ela ainda é um problema, não temos o domínio de todas as ferramentas existentes e fica a sensação de que isso precisa ser resolvido logo. Como que estamos resolvendo isso? Com uma geração que saca bem, isso vai da minha filha, de empresas e gente informada. É algo que não soubemos fazer e estamos aprendendo agora. Teremos dias felizes pela frente e é bom imaginar que tudo o que conquistamos foi físico, ainda é uma experiência sensorial, ainda foi pessoa por pessoa e não sistemizada. A tendência é ser dessa forma, ter uma comunicação mundial pela internet. 

O reggae no underground
Toni Garrido
: Não acredito que o reggae seja um gênero underground. Ele passou a ser assim para os grandes canais de TV e de rádio, mas hoje temos shows por aí que levam 20, 30 mil pessoas toda hora e as pessoas não ficam sabendo. O Natiruts, o Ponto de Equilíbrio levam 10 mil pessoas a cada apresentação. O reggae está em um momento menos contemplativo e festivo como era antigamente, hoje temos um momento onde ele volta a ser mais espiritual e político novamente e isso leva mais tempo para chegar no público, mas com toda essa realidade, uma hora esse tipo de música vai chegar nas pessoas e elas vão ver que o reggae sempre esteve lá.

Isso tudo é cíclico, nós percebemos que não adianta tentar forçar a barra, tem que seguir firme trabalhando e fazendo tudo o que deve ser feito, na moral. É como ver o Romário, ele estava ali perto da área o jogo inteiro, mas quando a bola passava por ele aos 45 do segundo tempo ele botava para dentro.  Nós percebemos que o reggae estava distante e literalmente pensamos “Hey, o gênero está precisando de nós, do Natiruts, d’O Rappa e da força dessa galera” mesmo não tendo aceitação.

Nosso raciocínio é tranquilo a esse respeito. Por que vamos fazer uma turnê de 30, 40 shows de retorno do Cidade Negra? Não queríamos fazer shows assim e pegar uma grana, vamos fazer 5 shows nesse formato e a vida precisa seguir. Pensamos que devíamos entrar em estúdio e fazer música nova.

Achamos fantástico ver o Los Hermanos voltarem e gerarem toda essa histeria, é uma banda forte e fez tudo muito correto, mas nós queríamos realmente entrar em estúdio e fazer tudo desse jeito. Comunicar nossa turma, pegar nossa nação regueira e quando tudo estivesse organizado apresentar material pelo Brasil com o time mexendo nas coisas.

O engajamento no reggae
Toni Garrido
: Não falta engajamento no reggae não... todas as bandas têm músicas de amor, de protesto ou de assuntos diversos. Todas as bandas você vai pegar isso, é que algumas músicas acabam pegando mais que outras. Hey Afro foi feito há dois anos do seu lançamento, nós nunca imaginaríamos que uma letra como Paiol De Pólvora poderia fazer tanto sentido agora no Rio de Janeiro ou no Brasil inteiro. As coisas estão todas lá, acontecem há muitos anos e vão seguir acontecendo, por esse motivo as bandas de reggae são sempre muito atuais. Política, amor e social, é só procurar.

O dinamismo na música
Toni Garrido
: O dinamismo mostrou que existiam muitas bandas interessantes e depois que existiam muitas outras também. Sem o dinamismo nada aparece e ninguém aparece, ele é fundamental. O que pedimos é que ele seja democrático porque ele hoje é monocromático demais. Pegam e dizem “olha só, agora é o axé, agora é o rock, agora é o soul” e isso tá errado, o Brasil é plural, para todos. A molecada gosta de tudo. Antigamente você jamais imaginaria alguém que escuta rock ouvindo reggae ou forró, hoje você vai em lugares que toca de tudo e as pessoas se divertem. Acabou esse negócio de gênero, existem cidadãos interessados em tudo. As pessoas não se levam por uma única coisa, os indicadores de talento tem que dar essa oportunidade para todos. Ela é filtrada para os meios de comunicação de marca e precisa ser mais democrática.

Shows internacionais e o conflito com músicos brasileiros
Toni Garrido
: Nada na música pode ser desagregador. Tudo agrega para qualquer pessoa e todo circuito aprende. Seja a forma de se apresentar, os circuitos de shows, a produção ou qualquer elemento. O que é preciso ter no Brasil é fomento para as pessoas saírem e levarem sua música também a outros cantos. Tudo tem que acontecer aqui, sempre. Reclamam que faço concessão demais, mas sou muito a favor da pluralidade musical, de se encaixar em todos os ambientes.

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