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Entrevista BOMBAY GROOVY

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Quem ouve a música do Bombay Groovy sem conhecer a banda fatalmente acha que trata-se de algum lado B lançado por uma das muitas bandas que construíram sua história nas décadas de 60 e 70. Formado em São Paulo por Rodrigo Bourganos (Sitar e Theremin), Jimmy Diniz Pappon (Hammond) e Leonardo Nascimento (Bateria), a banda lançou em 2016 seu segundo álbum, o ótimo Dandy do Dendê, e se firma como uma das maiores revelações da música instrumental da atualidade.

Bebendo de influências que únem o Oriente e o Ocidente, a Bombay Groove investe em uma sonoridade que definiu os anos 60 e 70, mas que nas mãos do grupo paulista foge da nostalgia pela intensidade com que é executada cada faixa e soa atual, dando ao seu trabalho uma legitimidade que só grandes nomes do gênero podem conquistar.

Baseado nisso conversamos com Rodrigo Bourganos sobre o que é a Bombay Groovy e quais elementos deram forma a Dandy do Dendê, disco que tem tudo para figurar entre os grandes lançamentos do ano, em uma ótima entrevista!

A identidade do Bombay Groovy
Rodrigo Bourganos: Música instrumental não é bem um gênero, normalmente é colocado, as pessoas chamam dessa forma, mas a única diferença é que ela não se expressa lexicalmente, verbalmente. E isso possibilita uma gama muito maior de influências e estéticas e formas. A música não precisa respeitar aquela métrica do refrão de versos etc, embora seja importante também trabalhar com temas para que não se torne uma música de fundo ou ambiente. A música instrumental tem que se preocupar em expressar algo.

Artistas como o Paco de Lucía foram uma influência direta para o Bombay Groovy, especialmente na faixa Pavão de Andaluz (Nota do Editor: faixa presente no novo álbum da banda, Dandy do Dendê, e que ganhou recentemente um videoclipe). Eu estava ouvindo mundo o álbum Entre dos Aguas (nota do editor: disco clássico de Paco lançado em 1973) e tentei fazer um ritmo mais flamenco com o citar tocando como uma guitarra flamenca. Todas essas influências que temos nós usamos de uma forma quase que esquizofrênica sem respeitar nenhum tipo de expectativa. Essa é justamente a ideia do Bombay Groovy, mesclar muitas influências e texturas.

As parcerias no clipe de Pavão de Andaluz a definição de uma cena
Rodrigo Bourganos: A parceria com alguns artistas não significa exatamente que existe uma cena de algo. Existe uma mística sobre isso que é um movimento que usa um mesmo contexto. Não sei se isso se aplica ao que está acontecendo recentemente. Hoje é muito mais fácil formar uma banda do que nos anos 70 e naturalmente os músicos acabam se reunindo por afinidades, indo para os mesmos lugares, há o que podemos chamar de cena, mas cada um com um pensamento diferente musicalmente, algo mais difuso. Hoje todos se ajudam e são amigos, mas não sei se eles enquadrariam no mesmo movimento artístico... ainda que nos anos 70 nós tivéssemos Ramones e Patti Smith completamente diferentes, mas dentro do mesmo movimento.

Os músicos que convidamos para participar de nosso clipe são amigos nossos de bandas que tocam junto conosco em vários lugares de São Paulo e eles adoraram o conceito do vídeo. O empecilho era justamente conseguir acertar a agenda de todos e por isso acabou se estendendo além do que a gente imaginava. A ideia foi do Léo (Leonardo Nascimento), nosso baterista, que sempre tem umas sacadas ótimas e super criativas.  A ideia era de gravarmos uma banda tocando atrás com um vocalista marrentão na frente na maior postura do Plant e resolvemos levar para outro lugar, convidando outros vocalistas como se fosse uma sessão de gravação. Tudo na produção foi bem mais fácil, fomos felizes nas escolhas de lugares e era levar a câmera e gravar.

O álbum Dandy do Dendê no palco
Rodrigo Bourganos: No álbum Dandy do Dendê nós exploramos mais texturas ainda, então a quantidade de instrumentos que levamos para o palco é muito maior. Ultimamente eu não tenho levado só a sitar, mas a craviola, a guitarra em afinação de sitar, o teremim, até mesmo tambores, quando tocamos na faixa-título, que tem uma parte de maracatu.
Como é uma música instrumental nós temos muitas formas de nos expressar e um dos jeitos que recorremos é a moda. O fim dos anos 60 foi um dos períodos em que a juventude buscou estéticas anteriores, não só na moda, mas na música. Foi a época em que a comprava-se roupas vitorianas, orientais e mais antigas, até mesmo da renascença, e elas eram misturadas a coisas da época. Isso aconteceu na música e nós recorremos a essa estética plural para expressar esse mergulho no nosso trabalho.

Espaço para shows
Rodrigo Bourganos: A produtora Abraxas tem proporcionado diversos encontros entre bandas nacionais e internacionais e isso tem proporcionado um intercâmbio muito interessante. Às vezes é difícil você conseguir sentar e conversar com alguém que é do Rio de Janeiro e de outras capitais. Esse é um gênero bem urbano normalmente.

Em São Paulo a própria região da Rua Augusta, que era onde aconteciam vários shows acabou perdendo seu lugar com a especulação imobiliária e bares fechando. Mudou o perfil do público e todos tiveram que se adaptar a isso. Em contramão os espaços estão cada vez mais difusos, não a toa as bandas estão recorrendo às ruas para tocar, mas são muitos eventos de coletivos como o SP na Rua, que é uma baita festa, além de lugares no centro. Ultimamente recomendo muito Estúdio Lâmina, no centro de São Paulo, que é uma galeria de arte que agora faz alguns shows. São vários lugares como o Casa de Francisca, que está ocupando o centro também.

A internet e seu papel como instrumento de pesquisa musical
Rodrigo Bourganos: A internet facilitou muito, mas ao mesmo tempo ela facilitou demais... porque acho que antigamente se dava mais valor a alguma raridade, caso dos anos 50, 60... eles só tinham acesso às fitas e discos de vinil, imagina... Jimmy Page é um artista que há anos vinha estudando os ritmos étnicos e orientais e até mesmo o flamenco, assim como vários artistas da época pré-internet. Então de alguma forma isso tudo acabou sendo entregue pronto para a nossa geração.

Eu pessoalmente diria que estamos contaminados com o que veio depois, caso dos anos 80 e 90, que até certo ponto é um pouco vulgar e não tão criativo, e digo isso no meu ponto de vista e da banda. E nós tendemos inicialmente a aprender com a diluição do que foi diluído, de bandas que usaram o que o Led Zeppelin fez e já estava em si com referencias difusas. Nós tivemos que fazer uma pesquisa de antes disso então. As bandas que ouvimos nós tivemos que pensar e partir desse ponto e não do que veio depois.

Hoje é muito fácil acesso, mas você tem que saber como procurar e o que procurar. Você pega uma banda como o Aerosmith, que chegou mais fácil até nós na adolescência, ouviram o Led Zeppelin IV (NE: disco clássico da banda inglesa lançado em 1971) e influenciaram eles, mas se você ouve o disco do Led Zeppelin em si ele é muito diferente. Já existe algo além do blues que eles ouviram antes e aquela expressão mais ancestral da música étnica. Nós nos inspiramos nas influências das nossas influências.

O guitarrista Jack Rubens, do Mescalines, que é do mesmo selo que o nosso, conta que começou a tocar guitarra com o Slash, ex-Guns N Roses, Jeff Beck, Jimi Hendrix... mas hoje sempre fala que é bastante influenciado por bluesman como o John Lee Hooker e a década de 20, 30...

O interesse pelo passado
Rodrigo Bourganos: Vez por outra sempre existem movimentos de resgate. Nos anos 80 já havia isso com a busca do MOD, que é um movimento dos anos 60. Sempre há essa coisa da nostalgia e as nossas bandas são inspiradas pela década de 60 e 70 e muito antes.

A tecnologia na música do Bombay Groovy
Rodrigo Bourganos: A tecnologia permite que nós possamos gravar com instrumentos mid e samples, só que na opinião minha e da banda a melhor parte do instrumento é o defeito dele. É o tipo de coisa que o sampler nunca vai conseguir emular. Aquele ruído, a palheta que desliza... o sampler nunca vai conseguir isso. Inicialmente, o que posso dizer é que a logística ajudou demais. Isso ajudou no processo de gravação porque fizemos muita coisa à distância, fazendo em casa e enviando os arquivos digitalmente. As composições eram trocadas por Facebook ou gravações de celular para os membros da banda ouvirem e já chegarem no ensaio as estruturas para aquele dia. Isso é muito bom e é nesse caminho que a tecnologia deveria andar com o rock. As duas formas mais apropriadas de se ouvir música hoje em dia são o streaming e o vinil. Uma delas pela praticidade dos playlists etc e o vinil por uma opção mais concentrada, que você possa se dedicar aos detalhes.

A turbulência política e seu impacto na música
Rodrigo Bourganos: Infelizmente sim... nosso álbum acabou sendo um pouco adiado porque na época em que iríamos lançá-lo havia alguma coisa relacionada ao impeachment que seria aprovada, com isso ninguém mais teria qualquer interesse em música no período. Então o lançamento ficaria coberto por tudo. Acredito que uma boa parcela da classe artística está falando sobre todos esses problemas sociais e políticas sem um pensamento dialético, aquela coisa de você chegar em um festival e estar escrito “Fora Temer” e ele não tem explicações suficientes para fazer aquilo, agindo como um código de conduta de um todo. A arte precisa expressar algo, mas com embasamento. Assim como temos musicalmente uma nostalgia com a música, parece que socialmente existe uma nostalgia com a ditadura dos anos 60 e tudo isso acaba confundindo as coisas... é apenas uma questão pessoal.

Sobre a questão disso influenciar a realização de festivais, nós estamos fazendo o Instrumentown, o La Nave... e eu percebi que nos piores momentos da crise realmente caiu o movimento, nós sentimos porque a economia precisa funcionar para que as pessoas tenham poder de consumo. Em tempos de crise fica realmente complicado para esse cenário.

O formato dos meios de comunicação
Rodrigo Bourganos: Ainda está confuso o processo de se passar informação, mas o problema é que existe muita informação e o público não está sabendo lidar com isso. O próprio mainstream não está sabendo lidar com isso e não tem mais o mesmo peso de antigamente. Essa mídia grande já estabelecida traz uma espécie de legitimidade que faz as bandas gozam disso. Por exemplo, se você aparecer no Programa do Jô as pessoas vão te ver diferente, isso ainda influencia demais na opinião delas, mesmo que elas tenham acesso ao seu trabalho fácil antes disso..

Futuro
Rodrigo Bourganos: Nós temos que continuar insistindo no disco e tentar fazer ele ser digerido. É um trabalho que nos orgulhamos e que foi feito com muito carinho e é muito maduro também, por isso queremos fazer com que ele seja aproveitado ao máximo pelas pessoas que não o conheceram ainda. Temos planos de realizar um clipe para a faixa Kebab á Pigalle também.

A música passa por aqui.

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